sábado, 3 de maio de 2008

Sinais de Fumaça

O velho Muriqui-Sentado colhia algumas ervas para seu ritual noturno. Havia passado o dia inteiro colhendo gravetos e folhas secas para sua fogueira e agora procurava ervas frescas para mascar. Um hábito ruminante que Muriqui Sentado sabia estar ameaçado de extinção pela invasão da terra de seus ancestrais pelos homens-arroz. Embustecido por tais pensamentos, o velho xamã indígena introduziu algumas folhas em sua boca e dirigiu-se em direção à colina de Itatinga.
Daquela visão privilegiada Muriqui Sentado teve uma apreciação com uma abrangente perspectiva de sua tribo. Viu o sangue de seus filhos correndo pelo chão, manchando a sua virgem terra. Viu as mulheres dos seus filhos e suas filhas serem estupradas. Viu os frutos de tais violências contra o seu povo correndo pelos tristes, cinzas e desfloridos campos, outrora risonhos, lindos e floris. Notou como tais netos ja traziam em suas veias o sangue dos homens-arroz.
O que Muriqui-Sentado não via eram espíritos-feijões como ele. Sabia que existiam poucos como ele encarnados em sua tribo e menos ainda encarnados entre a tribo dos homens-arroz. Não obstante, Muriqui-Sentado não desistiria de tentar se comunicar com uma alma semelhante. Precisavam se reunirem urgentemente para planejarem o futuro. Antes de mais nada, teriam que dar um jeito de sobreviverem às espessas trevas que cobririam sua tribo nas próximas luas, nas próximas gerações, nas próximas eras.
Acendeu seu cachimbo com um graveto flamejante e assistiu a fumaça que sua velha boca soltava se misturar à fumaça da fogueira que tentava em vão uma comunicação com alguém com quem poderia compartilhar seus temores, seus receios, anseios e esperanças. Em vão desde que Muriqui-Sentado fugiu de seu povo invadido e se escondeu nas ainda virgens selvas que cercavam sua tribo até aquele momento em que observava uma branca fumaça vindo de uma clareira longe no horizonte, longe das instalações dos homens-arroz. O mundo se turvou ao redor de Muriqui-Sentado e seus olhos marejados quando ele iniciou sua cautelosa e ansiosa viagem em direção ao seu futuro...

2 comentários:

Anônimo disse...

Feijão/Arroz, Passado/Futuro, Amor/Ódio, Luz/Trevas, Yin/Yang. A vida é mesmo feita de contradições... belo texto, rapaz!
:)

Diogo Melo disse...

Sim... o Universo parece ser, em muitos aspectos, polarizado...

Thanks dear ! =P