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sábado, 3 de maio de 2008

Sinais de Fumaça

O velho Muriqui-Sentado colhia algumas ervas para seu ritual noturno. Havia passado o dia inteiro colhendo gravetos e folhas secas para sua fogueira e agora procurava ervas frescas para mascar. Um hábito ruminante que Muriqui Sentado sabia estar ameaçado de extinção pela invasão da terra de seus ancestrais pelos homens-arroz. Embustecido por tais pensamentos, o velho xamã indígena introduziu algumas folhas em sua boca e dirigiu-se em direção à colina de Itatinga.
Daquela visão privilegiada Muriqui Sentado teve uma apreciação com uma abrangente perspectiva de sua tribo. Viu o sangue de seus filhos correndo pelo chão, manchando a sua virgem terra. Viu as mulheres dos seus filhos e suas filhas serem estupradas. Viu os frutos de tais violências contra o seu povo correndo pelos tristes, cinzas e desfloridos campos, outrora risonhos, lindos e floris. Notou como tais netos ja traziam em suas veias o sangue dos homens-arroz.
O que Muriqui-Sentado não via eram espíritos-feijões como ele. Sabia que existiam poucos como ele encarnados em sua tribo e menos ainda encarnados entre a tribo dos homens-arroz. Não obstante, Muriqui-Sentado não desistiria de tentar se comunicar com uma alma semelhante. Precisavam se reunirem urgentemente para planejarem o futuro. Antes de mais nada, teriam que dar um jeito de sobreviverem às espessas trevas que cobririam sua tribo nas próximas luas, nas próximas gerações, nas próximas eras.
Acendeu seu cachimbo com um graveto flamejante e assistiu a fumaça que sua velha boca soltava se misturar à fumaça da fogueira que tentava em vão uma comunicação com alguém com quem poderia compartilhar seus temores, seus receios, anseios e esperanças. Em vão desde que Muriqui-Sentado fugiu de seu povo invadido e se escondeu nas ainda virgens selvas que cercavam sua tribo até aquele momento em que observava uma branca fumaça vindo de uma clareira longe no horizonte, longe das instalações dos homens-arroz. O mundo se turvou ao redor de Muriqui-Sentado e seus olhos marejados quando ele iniciou sua cautelosa e ansiosa viagem em direção ao seu futuro...

domingo, 20 de janeiro de 2008

Lágrimas de Homo Sapiens

Que isso Ali ? Tá chorando ? Ta mascando chiclete ?! Hahahaha...

Que nada Croc. Entrou uma maldita mosca aqui no meu olho. Ta ardendo pacas.

Sei... Achei que eram lágrimas de homo sapiens.

Homo Sapiens ?

Sim. Aqueles macacos albinos que se vestem com algodão e pele de outros animais.

Eu sei o que é um Homo Sapiens. Só não entendi o lance das lágrimas.

Bom, é o seguinte. Sabe porque nós, crocodilos, lacrimejamos quando comemos né ?

Tem alguma coisa a ver com uma glândula que a gente aperta quando damos uma mordida, não ?

Exatamente. Quando damos uma mordida num animal qualquer, realizamos uma pressão numa glândula que derruba uma substância nos nossos olhos que o irrita, causando a lacrimejação, ou seja, água é liberada com o intuito de limpá-lo, da mesma forma que a mosca que entrou no seu olho faz com que ele tente se limpar também.

E o que isso tem a ver com os macacos ?

Acontece que os Homo Sapiens possuem um controle interessante sobre tal glândula. Eles a ativam quando se encontram em determinados estados emocionais. Funciona como uma forma de demonstrar emoções entre eles.

Sério ?! Que tipo de emoção ?

Ah... muitos tipos... Tristeza, alegria, gratidão... até mesmo admiração perante algo que eles achem bonito, sei lá...

Tá brincando né ? E como eles diferenciam que emoção as lágrimas estão expressando ? Quero dizer, existe um único tipo de glândula e, pelo o que você diz, eles demonstram emoções extremamente diferentes ativando o mesmo órgão.

E como você acha que eu vou saber isso ? Eu não sou um maldito Homo Sapiens !

Sei não hein ? Do jeito que o seu sangue tá quente você ta parecendo um.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Bunnyville

Era uma vez uma, numa terra distante, uma feliz e próspera vila de coelhos chamada Bunnyville. Os habitantes de Bunnyville viviam em harmonia inseridos num sistema econômico simples , tendo como base uma única unidade monetária, a cenoura. Todos os serviços realizados por um Bunny para outro eram recompensados com um número pré-determinado de cenouras. Desnecessário dizer que o sustento do indivíduo era automaticamente garantido pela sua renda, dada a identificação da moeda com a fonte de sustento básica do cidadão Bunnyvillense. Porém, tal identificação gerava um sério problema. Se novas unidades monetárias não fossem obtidas de modo a repor aquelas consumidas pela população a cada dia, a economia entraria rapidamente em colapso. Deste modo, a sociedade Bunny dependia fortemente dos chamados coletores, coelhos que eram mandados na calada da noite para Manville, uma vila de humanos que cultivavam, entre outras coisas, a tão cobiçada cenoura, a fim de obterem o estoque diário necessário para manter sua sociedade funcionando apropriadamente. Obviamente aos coletores cabia uma pequena parcela do que obtiam. A maior parte tinha que ser distribuída pela sociedade. Mas tal distribuição não era feita espontaneamente. Os coletores não eram bom samaritanos nem nada. O caso é que eles eram apenas a extremidade de uma longa cadeia econômica. Estavam a serviço de ricos distribuidores. Eles eram encarregados de organizar os coletores em grupos que minimizassem o risco corrido em suas missões, fornecendo todo o material necessário em sua empreitada. Eram responsáveis também por diversos outros grupos que prestavam importantes serviços em Bunnyville. Porém, os distribuidores eram menos bom samaritanos que os coletores. Enquanto seus trabalhadores recebiam cenouras suficientes para garantirem seu sustento e a manutenção de seus razoáveis padrões de vida, os distribuidores, em troca de seu serviço de organização, abocanhavam uma boa parte das cenouras obtidas. Como eles organizavam todas as instituições prestadoras de serviços em Bunnyville, toda cenoura que não era consumida por um cidadão ia parar invariavelmente em seus cofres.

Carl era um cidadão Bunnyvillense que não estava satisfeito com o Status Quo de sua sociedade. Seu problema não era com a exploração realizada pelos distribuidores. Ele estava por demais inserido no contexto econômico para ter noção de tal exploração. Em sua cabeça, como na cabeça de todos os outros explorados, as coisas não poderiam ser de outro jeito. O que o preocupava era algo mais básico, mais simples, mais fundamental e, por isso, mais controverso. Carl se incomodava com a idéia de que Bunnyville era uma sociedade de ladrões. Sua sobrevivência dependia inteiramente do cultivo de cenouras realizado pelos homens. Eram salafrários sem escrúpulos, sugando o sustento alheio e não retornando nada em troca. Em suma, parasitas de Manville por excelência. Tal idéia trazia náuseas a Carl, muitas vezes roubando seu sono o que, ironicamente, apenas piorava a situação, pois o permitia presenciar o saque noturno realizado por seus companheiros. Carl não sabia por quanto tempo mais aguentaria viver sob a condição de parasitismo. Já havia feito greve de fome, porém sem sucesso. Não apenas sua vida, mas a de toda sua comunidade dependia daquela infame atividade. Não, morrer de fome não iria ajudar em nada. Carl precisava encontrar um jeito de libertar Bunnyville da condição vermífuga.

Armado de tais pensamentos e de uma súbita dose de coragem, Carl deixou Bunnyville. A algum tempo ele havia tido uma brilhante idéia. Da mesma forma que as cenouras cresciam na terra cultivada pelos homens, ela haveria de crescer também em alguma porção de terra ainda não explorada nos arredores. Se Carl pudesse encontrar cenouras que não pertencessem a ninguém, que crescessem naturalmente, sem o cuidado de nenhum humano, então não haveria problema algum em Bunnyville utilizar tais vegetais para seu sustento. Passariam a ser uma raça de exploradores, ao invés de reles parasitas. Embuído com a vontade de melhorar o mundo, Carl passou dias explorando os territórios desconhecidos que iam além de Manville.

Dias se passaram e Carl sentia em suas costas todo o peso das frustrações que acometem aqueles que falham em uma nobre missão. Sentia que rodava em círculos, nunca encontrando o menor sinal das folhas que saiam do solo, indicando a presença da suculenta raiz. Se arrastando, desprovido de forças, Carl se perguntava se o Grande Coelho havia criado ele e seus irmãos para serem nada mais além de repugnantes vermes parasitários. Estariam fadados à eterna dependência, nunca indo além do furto para garantirem sua sobrevivência, nunca conquistando uma forma honesta de subsistência ? Num último gesto de esperança, Carl começou a cavar a clareira onde se encontrava. A razão o dizia que era um ato inútil, que ele nunca encontraria cenouras numa clareira desprovida das folhas característica de um pé de cenoura. Porém Carl já havia abandonado a razão, restando apenas a fé.

No mesmo dia Carl retornava triunfante ao seu povo, carregado de cenouras que ele havia encontrado no buraco cavado na clareira. Não entendia o porquê de tais cenouras não possuirem a característica folhagem por cima do solo. Talvez fosse algo que apenas as cenouras cultivadas pelos homens possuíssem, mas isso não importava. O importante é que ele havia encontrado a chave para libertar seu povo do parasitivismo vulgar, ou melhor, assim ele imaginava. No mesmo dia, apesar de seus protestos desesperados, foi preso e sentenciado à morte por invadir e saquear o cofre de um rico e poderoso distribuidor.

Moral da história: O caminho para o inferno está repleto de boas intenções.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A Arte da Criação da Arte

Era uma reunião de emergência. As melhores mentes da humanidade haviam sido urgentemente chamadas para discutir a questão mais importante jamais levantada na história. Iriam discutir seriamente sobre o tráfego de informações.

- A situação é extremamente crítica - suspirou Leonardo.

-Sinais de perda de fé podem ser visto em todos os lugares - alertou Raphael.

- Pensar e sonhar são atividades cada vez menos praticadas e conhecidas - se desesperou Donatello.

- Estou triste - confessou Michelangelo.

Durante horas as maiores mentes da humanidade discutiam, explicando seus infinitos motivos pela perda de fé na humanidade. A alienação dos jovens, a amargura e conformismo dos velhos, a escravidão dos adultos. Não existia um lado que alguém olhasse e não presenciasse um crime animalesco contra o espírito humano. Aquele espírito tão cheio de potencial, com tanta capacidade para superar a si mesmo, porém, simultaneamente, tão medroso e preguiçoso. Se nada fosse feito, ninguém iria sair vivo daquele pálido ponto azul chamado Terra.

- Como vemos, graças à extensa e precisa análise de Ludwig, a qualidade de atividade intelectual dos indivíduos está altamente correlacionada com o respectivo fluxo de idéias. Spooky Clouds, o modelo que descreve tal fenômeno, toma como hipótese a idéia de nós de informação, encruzilhadas de sinapses altamente estáveis que funcionam como pontes entre diferentes idéias na mente de um ser humano. É tal fator aleatório o responsável por todas as tomadas de decisões e resoluções dos problemas, desde que a vida como a conhecemos surgiu.

- Alguém poderia ir direto ao ponto ? - Geraldo esfregava a cabeça, impaciente - Não temos exatamente todo o tempo do mundo aqui.


- O ponto, meus caros, é que precisamos encontrar uma solução efetiva para incentivar o fluxo de informação para o cérebro das pessoas. Um alto e constante fluxo age como um efetivo catalisador de nós, que por sua vez catalisa nossos sonhos... e o resto se escreve sozinho.

Um silêncio se fez no recinto, silêncio este que representava a cumplicidade de todas as mentes presentes. Todos concordavam que algo precisava ser feito urgentemente para salvar a obra-prima da natureza, o engenho mais complexo do universo conhecido, o cérebro humano! Mas, o quê ?

Um som rítmico repentinamente se fez ouvir no salão de reuniões. Era um ritmo preciso, contagiante, simples, rico, mágico. Eram sons produzidos por um bongô sendo constantemente estapeado. Risos de timbre feminino eram também audíveis à esta altura.

- Meninas, eu duvido que vocês tenham se divertido tanto quanto eu. Da próxima vez eu compensarei meus erros de hoje.

Quando as índias semi-nuas se fizeram ausentes, o tocador de bongô pareceu notar pela primeira vez os olhos que se dirigiam, reprovadores, para ele.

- E aí pessoal ! Tudo certinho ?

- Dick, meu amigo. Todos nós estamos acostumados com a sua, como eu diria isso, excentricidade - Quase imediatamente, a fala de Geraldo foi interrompida por Dick - E eu devo dizer que sempre apreciei muito tal postura meus colegas.

- Obrigado. - Geraldo meneou a cabeça modestamente - Dick, estamos enfrentando uma séria crise aqui, talvez a maior de todas, e precisamos de toda a ajuda disponível. E você bem o sabe que a sua ajuda sempre nos foi de extrema importância no passado. É de meu desejo que tal quadro continue a ser pintado hoje, meu caro, quando, como eu já disse, não podemos nos dar ao luxo de perder qualquer tipo de ajuda.

- Sim - Dick subitamente parecia ter trocado de personalidade, como um músico talentoso troca de instrumento no meio de uma apresentação - Já estou familiarizado com o conceito da crise, inclusive com o plano sobre o fluxo de idéias.

- Plano ? Não temos plano algum ! - Fred apoiava sua latejante cabeça em suas mãos, como se segurasse o mundo inteiro vacilante entre seus dedos - Tudo o que temos é essa vontade de, de alguma maneira qualquer, incentivaro fluxo de idéias na mente dos seres humanos. Mas não fazemos a menor idéia de como alcançar tal feito.

- Já é um começo. E que belo começo ! Há de surgir o plano bem sucedido que não tenha começado com uma vontade ou, melhor ainda, com um sonho.

- Precisamos de algo mais palpável que um sonho. - Geraldo começa a mostrar sinais de impaciência - Precisamos de pragmatismo, precisamos agir!

- Bem, eu tive uma idéia engraçada que pode dar certo. - Todos os olhos se voltaram, novamente, para Dick.

- Bom, - Dick rompia timidamente o silêncio que ele havia arquitetado. Sua boca estava seca, seu estômago repleto de borboletas. Se concentrou para não ser distraído pelas batidas de seu coração e continuou com o discurso semi-ensaiado - Para vender o nosso produto, no caso as idéias, precisamos de embalagens eficientes.

Uma comoção tomou conta do ambiente. Ninguém estava exatamente no clima apropriado para ouvir as pilhérias de Dick. Antes que os murmuros de descaso se tornassem sonoras vaias, a voz tímida de John ecoou, limpidamente, por todo o salão:

- Hey pessoal, vamos terminar de ouvir a idéia do Dick. Ele raramente nos desaponta.


Paz John ! - voltando-se para a descrente multidão, ele continuou com a sua propaganda - Sim, embalagens atraentes, instigantes, reconfortantes. Embalagens bonitas ! É disso que precisamos para vender nosso peixe.

O surdo silêncio que reinava parecia suspirar: ”Continue, sou todo ouvidos”, e ele continuou:

- É só observarmos um pouquinho o ser humano para notarmos que as coisas que ele não gosta são feitas extremamente de má vontade e com qualidade infinitamente inferior às coisas que ele gosta, às que ele se sente atraído, satisfeito por fazê-las. E não é preciso ser nenhum Alberto para sacar que o homem gosta, ou melhor, cultua a beleza.

- Ele tem razão - se surpreendeu Alberto - eu compraria qualquer coisa cuja embalagem lembrasse a beleza sagrada de um solo de violino.


- Mas, o que você está sugerindo ? - Geraldo não parecia estar seguindo a linha de raciocínio muito bem - Que comecemos a distribuir idéias de suma importância para o progresso da humanidade codificado nas notas de uma música ?

- Exatamente ! - Dick estava no apogeu de uma forte descarga de endorfina - E não apenas nas notas, mas nas letras. E em livros com histórias envolventes, em quadros, estátuas...

- Podemos incutir idéias e questionamentos em músicas populares. -animou-se Paulo.

- Ou cultuar a própria idéia de perfeição, que está sempre motivando as ações dos homens. - inspirou-se Plato.


- Ou revelar novos pontos de vista, novas perspectivas, novas maneires de se enxergar o mundo em pinturas. - empolgou-se Pablo.

- Preparar o mundo para uma nova era através de atraentes alegorias. -reanimou-se Fred.

- Isso, isso. Acho que vocês pegaram a idéia. - Dick alterava novamente o seu semblante. - Vamos pensar em algo simples de início, como... hmmm... sei lá, pinturas nas cavernas. E logo após desenvolver a escrita, para podermos preservar de uma maneira mais ou menos eficiente todas essas idéias.

- Acho que sei quem pode nos ajudar com a matéria-prima, tintas, panos, peles de animais e tudo o mais.- e, de uma maneira mais espetacular do que entrou, Dick deixou o recinto, feliz pela eficiente germinação de suas sementes - Ei meninas ! Meninas, precisamos de uma mãozinha aqui.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Pegadas na Areia

O vento continuava soprando. Não haviam motivos para ele parar de soprar, haviam ? Ora para o leste, ora para o oeste, o vento continuava em sua incessante marcha, nos resfriando, roubando nosso precioso calor à medida em que avançávamos. Sempre em frente, superando os obstáculos à medida que iam surgindo. Se alguém ousasse olhar para trás, poderia vislumbrar as pegadas que deixávamos enquanto seguíamos viagem. Elas se perdiam no escuro horizonte, nos fazendo lembrar o quanto já havíamos percorrido, nos enchendo de nostalgia reconfortante, alimentando nossas esperanças no futuro. Algum dia, eu repetia para mim mesmo diariamente, nós encontraríamos uma chama acalentadora neste deserto frio, nesta ventania constante. Sim, eu possuo a doença dos sonhadores...

Era um dia de chuva torrencial quando o estopim foi aceso. Enquanto me distraia observando as pegadas que meus vizinhos da frente deixavam, não pude deixar de notar uma nova la de pegadas, bem no extremo direito da geodésica, que havia surgido repentinamente. O seu misterioso aparecimento me deixou tão perturbado que demorei alguns instantes antes de me atentar para o estranho fato das novas pegas estarem invertidas. Sim, elas apontavam para o Sul!

- Olha só que engraçado. As pegadas apontando para o sul.

- Olha pra frente cara !

- Relaxa, tá tudo sob controle. Mas, essas pegadas, elas são realmente instigantes.

-Bobagem. Algum idiota querendo pregar uma peça em alguém deve ter começado a andar de costas, só para tirar uma onda. Essa molecada de hoje é cheia dessas.

- Sei...

Na verdade, eu não sabia de nada. Claro que tinha entendido a argumentação daquele senhor,
mas ela não havia me convencido. Existia algo de estranho e bizarro naquelas pegadas. Toda a caminhada da humanidade havia se dado sempre na direção Sul-Norte. Como poderia ser de outro jeito ? Mas, contrariando sua razão, lá estava, aos olhos de quem quer que quisesse ver, as pegadas se dirigindo ao escuro, profundo e passado Sul. Será que, será que alguém teria ousado ? Ousado o suficiente para dar meia-volta ?

Eu não ousaria criticar o valor de uma boa piada, nem iria querer isso. O humor é uma arte apreciada pela minha pessoa. No entanto, aquelas pegadas há muito já haviam ultrapassado o limite de uma simples traquinagem de um jovem livre para gozar a vida. Não, eu tinha me deparado com algo profundo, intrigante e desafiador. E eu não poderia me dar ao luxo de perder uma oportunidade dessas. Assim sendo, numa fria e seca noite, eu reuni toda a minha curiosidade e espírito aventureiro, dei meia-volta e me coloquei no encalço das misteriosas pegadas e do elemento, quem quer que seja, que as criou e, imediatamente, as descartou num movimento simples e distraído de como aquele que se livra do gás carbônico gerado incessamente pelo seu organismo. Em minha viagem para o passado encontrei muitas pedras bloqueando o caminho. Risos e críticas bem(?)-humoradas eram dirigidas contra mim, enquanto meu corpo obstinado permanecia com sua trajetória inalterada.

- Rá, rá ! Olha lá o Curupira, andando pra trás !

- Será que ele esqueceu alguma coisa no caminho e tá vindo buscar ?

- Hahahahahaha !!!

- Não, não pessoal. Aposto que ele tá correndo atrás de alguma rapariga que tá fugindo dele !

As pessoas que se dirigiam para o Norte liberavam sonoras gargalhadas ao cruzarem meu caminho. Me pergunto o que o autor do meu atual caminho sofreu em sua jornada desbravadora pelo passado...

Estranho. O sol já havia nascido há tempos, mas o vento continuava soprando da direita pra esquerda, como se fosse noite. Será que a direção para a qual você está caminhando também inuenciava na direção em que o vento sopra, além, é claro, da hora do dia ? Sim, claro, só podia ser isso. Se você está andando do Sul para o Norte, de dia o vento sopra da esquerda pra direita, invertendo a sua direção a noite. Porém, se você inverter a direção em que você caminha, tudo é invertido ! É como um tipo de carga, que invertemos ao trocar o Norte pelo Sul como alvo de seu percurso. Interessante...

Fazia tempo que o meu percurso havia se distanciado das geodésicas mais próximas. Estava sozinho, apenas eu e as pegadas à minha frente. Já não aguentava mais a solidão, e o medo de passar tantas diculdades por nada já empurrava meus ombros para perto da areia. Assim, foi no meio de tantos nadas, tantas ausências, tantos momentos de total introspecção, que ele me apareceu pela primeira vez...
***

Creio que me faltam palavras para expressar a decepção que se apossou de meu ser ao ver aquela pilhérica figura vindo em minha direção, diretamente do horizonte, de costas ! Dolorosos flashbacks me assombraram instantaneamente:

- Bobagem. Algum idiota querendo pregar uma peça em alguém deve ter começado a andar de costas, só para tirar uma onda....Rá, rá !

- Olha lá o Curupira, andando pra trás !...Essa molecada de hoje é cheia dessas....Pregar uma peça em alguém...

O desamparo que se apossou de minha alma era tão pesado que simplesmente parei de andar, apoiei as mãos em meus joelhos, arcados pelo peso dos sonhos frustrados. Todos estavam certos, foi um erro estúpido ter vindo até tão longe, por nada.

O andarilho estava mais perto. Ele andava bem rápido, para alguém que gosta de sair andando por aí de costas. Cabelos compridos, roupas mal tratadas, ritmo regular. Não faltaria muito para poder enxergar o rosto do corno que havia me pregado a maior peça da minha vida.

Então, como um estouro de fogos de artifícios vistos por um polvo que descansava no leito oceânico, uma idéia surgiu, surda e surpreendente, em minha confusa e anestesiada mente. Estava num lugar deserto, onde as únicas geodésicas visíveis num raio de quilômetros eram aquela que ele havia seguido e a nova sendo criada pelo andarilho. Era óbvio ! A primeira havia, provavelmente, sida feita pelo próprio andarilho, mas desta vez ele devia estar andando para frente ! No momento, o que ela presenciava era o seu retorno onde, talvez como um artifício para distrair o stress da viagem, ele tenha decidido, pilheriamente, realizar um trecho da jornada de volta de costas. Isso não tirava o mérito de sua viagem de ida, tirava ?

O andarilho havia ultrapassado o ponto onde eu descansava sentado. Antes que eu ousasse esboçar alguma reação, senti que ele havia parado de andar e passara a me observar. Quase tive um ataque cardíaco quando ouvi um voz serena no meio do deserto:

- Que engraçado...

- Oi ?

- Você, aqui. No meio do nada, sentado, parado em cima da minha antiga trilha, sem ir para frente ou para trás. Sabe como é, as pessoas não costumam muito quebrar a rotina do sempre em frente.

- Sim, err... É verdade - não sabia o que dizer, não tinha se preparado para um possível encontro e posterior diálogo com o andarilho. Felizmente, o andarilho parecia muito mais à vontade com a situação.

- E aí ? O que você procura ?

- Como ?

- A maioria das jornadas difíceis requer um objetivo, por mais abstrato que ele seja. Qual é o seu ?

- Err... Eu estava procurando a pessoa que fez estas... - as palavras saíam vacilantes de minha boca - marcas.

- Marcas ? Ah, você se refere às minhas pegadas ?

- Sim.

O andarilho gargalhava sonoramente. O mundo ao redor girava numa velocidade alucinante.

- Bom. Cá estou. Receio que a minha pessoa não seja lá um objetivo tão valioso assim para motivar a sua jornada. Agora que você está aqui, seria prudente de sua parte, e interessante também, que você arrumasse um objetivo melhorzinho, não acha ?

Depois de alguns eternos segundos, disse timidamente:

- O meu sonho é encontrar uma fonte de calor, uma chama, algo assim. O pessoal lá na frente, digo, atrás, apreciaria muito.

- Fogo ! Uma das descobertas mais excitantes de todos os tempos. - seus olhos crispavam, repletos de empolgação e, eu imaginava, nostalgia - Você está com sorte meu amigo, se você nadar alguns metros naquela direção, achará o que procura. Quando passei por lá não dei muita bola, mas creio que você e seus amigos acharão alguma utilidade para tal presente dos deuses.

Tentar seguir a linha de raciocínio do andarilho era uma tarefa impossível para mim. Mal entendia suas estranhas palavras. Me contentei com a pergunta óbvia:

- Que direção ?

- Essa aqui. - O dedo do andarilho apontava, não para frente ou para trás, mas para uma direção intermediária !

- Na direção do mar ?

- Sim, sim. É só você nadar alguns metros que você vai achar o que procura. Confesso que não é ma tarefa muito fácil, ainda mais neste frio.

Mas, convenhamos, - o andarilho exibia um sorriso que era um misto de sabedoria e deboche - nada raro é fácil de se obter, por denfição.

- Nadar ?

- Sim, nadar. Qualquer peixe faz isso não ? E eles nem precisam de fogo! - novas gargalhadas - Bom meu amigo, devo ir agora. Boa sorte em sua jornada, e nos vemos por aí.

Tão rápido quanto apareceu no horizonte, ele desapareceu no horizonte oposto. Mas suas palavras reverberavam em minha cabeça. Nadar ele dizia, nadar ! Ele não ousaria tanto. Por outro lado, ele tinha vindo até ali não ? Seria covardia de sua parte dar mais um passo adiante, não ?


***


Encharcado, tremendo de frio e feliz, eu percorria o trajeto de volta, carregando em minha mão a chama da vitória. Uma vela queimava incessantemente, vela estava que encontrei num pequeno bote à deriva no mar. A alegria da conquista era tanta que ofuscava a expectativa em retornar para o meu povo com aquele presente dos Deuses. Lembrando do meu amigo andarilho, comecei a andar de costas, uma pequena homenagem àquele responsável pelo calor que sentia em minhas mãos. Com uma certa nostalgia, me lembrei da pergunta que nunca havia feito a ele, a pergunta que me asombraria, de uma maneira inspiradora, por toda a vida. Qual seria, afinal de contas, o objetivo da jornada Dele ?